A busca por vida e inteligência extraterrestres é provavelmente o maior desafio já apresentado à espécie humana. Temos um desejo muito forte de saber qual é o grau da nossa orfandade na imensidão do Cosmos. Reflexões filosóficas dessa natureza permearam todas as civilizações e épocas, com graus variados de perspicácia. Mas, pelo menos desde o século XVII, a ciência tem sido a melhor aposta para encontrar a resposta.
Estas foram as boas notícias. Agora as más. A ciência, para progredir, precisa de dados, sobre os quais alicerçar e com os quais confrontar as suas hipóteses. Sem uma base em experiências e observações, não há teoria que se sustente. A astrobiologia - conceito amplo que descreve a tentativa de perceber como a vida prolifera no Universo - carece desesperadamente de informações.
Começa que só conhecemos um tipo de vida - a terrestre. Cá para nós, num Universo de, pelo menos, vários triliões de bibliões de planetas, um é pouco. Estatisticamente insignificante. Será que existem outras formas de vida, diferentes das terrestres, ou seja, suportadas por outras fundações de cunho biológico? Sabemos lá. E sabem lá os cientistas. Eles adorariam saber, na verdade.
Peter Ward, o paleontólogo americano convertido em astrobiólogo, co-autor do best-seller "Rare Earth" ("Sós no Universo?", na versão portuguesa), acha que devemos procurar formas de vida "alienígenas" aqui mesmo, na Terra, em busca dessas respostas. No seu último livro, "Life as We Do Not Know It" ("A vida como nós não a conhecemos", numa tradução livre), recém-lançado nos EUA, ele sugere que formas de vida não aparentadas connosco (ou seja, usem o ADN como molécula para abrigar os genes e descendam de um ancestral comum) possam existir por aqui. Só não as encontrámos ainda, segundo Ward, porque as nossas ferramentas de análise são "permeáveis" a elas, ou seja, não conseguem detectá-las.
Isto pode até não ser verdade, mas é uma amostra do tamanho do nosso desconhecimento. Como procurar vida lá fora se nem sabemos quais são as formas que ela pode assumir (e portanto os ambientes que elas podem ocupar)?
Uma aposta segura é procurar ambientes similares aos da Terra. Podemos perder muito nessa filtragem, mas certamente estaremos a dirigir bem nossa aposta, com base no único exemplo de vida que conhecemos. Foi o que fez Margaret Turnbull, astrónoma da Instituição Carnegie de Washington, na última reunião da AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência), em Saint Louis, Estados Unidos.
É um estudo cinco estrelas. Turnbull elegeu cinco estrelas como as melhores candidatas a abrigar mundos habitáveis, com potenciais civilizações tecnológicas, e outras cinco que mais possivelmente pudessem abrigar planetas como a Terra.
As duas listas tomam por base tudo que conhecemos actualmente sobre planetas fora do Sistema Solar, uma lista que já conta com cerca de 160 membros, a imensa maioria gigantes gasosos como Júpiter ou Saturno. O surpreendente é que, mesmo com todo esse aumento de informação, a lista é cheia de velhas conhecidas - mais uma medida de quanto nós não sabemos, na verdade.
Por exemplo, entre as cinco candidatas a abrigar 'Terras', temos Epsilon Eridani e Tau Ceti. Essas duas estrelas foram as eleitas pelo astrónomo Frank Drake, no longínquo 1960, para as primeiras sessões de rádio-escuta em busca de sinais de civilizações alienígenas, no famoso Projecto Ozma - primeiro esforço dessa natureza. Desnecessário será dizer que nada foi encontrado (ou certamente você já teria ouvido falar disso).
Não bastasse isso, Turnbull faz escolhas suspeitas, do ponto de vista do nosso (parco) entendimento da evolução dos sistemas planetários. Entre a lista de candidatas a abrigar não só uma Terra habitável, mas uma civilização inteira, está a estrela 51 Pegasi, celebrizada por ter sido a primeira a "ganhar" um planeta dos astrónomos, em 1995.
Esse planeta, um gigante gasoso maior que Júpiter, gira colado à estrela, completando um ano inteiro em coisa de quatro dias. A essa proximidade, ele não atrapalharia a existência de Terras, localizadas a distâncias bem maiores. Esse é o raciocínio de Turnbull, mas traz um problema embutido: hoje os cientistas não sabem explicar como um planeta gigante gasoso foi parar tão perto da sua estrela.
Os modelos de formação de planetas ora vigentes só funcionam quando os gigantes gasosos se formam longe da estrela. Quando os primeiros planetas colados foram descobertos, surgiu um grande ponto de interrogação na cabeça dos cientistas. Hoje, a explicação mais provável é a de que eles tenham nascido longe, como sugerem os modelos, e depois migrado para perto das suas estrelas. Acontece que, um monstro desses, transitando por um sistema solar, destruiria todos os planetas - todas as Terras - que estivessem no caminho. Se isto estiver certo, 51 Pegasi não é um lugar tão bom assim.
Neste caso, Turnbull aposta no desconhecimento! Ela acredita que no futuro iremos descobrir que esses planetas gigantes gasosos já nasceram junto às suas estrelas, por mecanismos hoje indecifráveis.
Moral da história: como a famosa equação de Drake, que "calcula" quantas civilizações inteligentes e comunicantes existem na Via Láctea, todo o resto das especulações da astrobiologia não passam de suposições, muito mais perto das especulações filosóficas pré-método científico do que gostariam de admitir os cientistas.
Claro, com uma diferença. A ciência oferece um meio de prospectar mais dados e melhorar essas especulações. Explorando o nosso próprio Sistema Solar, procurando vida em ambientes inóspitos como Marte, Vénus e Europa, a lua de Júpiter, estaremos na verdade a formular questões muito mais amplas, que dizem respeito ao potencial do Universo todo para a vida.
Em vez de desencorajar, o desconhecido motiva: vale a pena procurar as respostas e acreditar que, talvez ainda nesta geração, poderemos ter uma medida real de quão sozinhos ou acompanhados estamos nesta jornada de decifragem dos mistérios da imensidão do Cosmos.
Fonte: Folha Online, Terra (Brasil) |