Frank Drake é astrónomo e passou dos 70 anos. Tem rosto largo, expressão tranquila, olhando as pessoas como eventual amigo ou como examinaria um extraterrestre, com interesse e simpatia.
Parece um cientista puro e ingénuo, desses que vão dar aulas de cuecas, com sapatos trocados e ainda costumam ser atropelados por bicicletas.
Drake ficou famoso na década de 1960 ao propor a equação que leva seu nome, cuja fórmula, bastante simples, é uma tentativa de verificar a possível existência de civilizações avançadas noutros planetas.
Um dos seus amigos foi o físico Carl Sagan, falecido em 1996, outro apaixonado pela dupla questão de saber se existe vida inteligente fora da Terra e, tão importante como isso, se uma civilização tecnologicamente avançada é capaz de sobreviver aos seus terríveis brinquedos nucleares e às suas sangrentas birras raciais, religiosas, sociais, políticas, geográficas e económicas.
Quando eu era adolescente, costumava deitar à noite de barriga para cima no relvado do quintal, mergulhando na fascinante escuridão estrelada do sertão mineiro. Passava horas mordiscando um talo de relva e viajando naquela infinidade de pontinhos pisca-piscantes que se perdiam no espaço.
Não fui o primeiro, não fui o único nem serei o último. Com lunetas, telescópios e a olho nu, milhões de pessoas vasculham o céu desde a antiguidade mais remota, buscando, se não amigos espalhados pelos muitos biliões de galáxias e triliões de estrelas, pelo menos algum sinal de que não estamos sozinhos. Talvez desesperadamente sozinhos.
UMA QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA Com os recentes avanços tecnológicos, que permitem examinar o espaço sem os entraves da atmosfera e das enormes distâncias, a cada dia surgem novos sóis e sistemas planetários supostamente habitáveis.
Quantos serão? Impossível calcular, ainda mais porque, tecnologicamente, apenas no último século demos os primeiros passos para fora de nossa casca de ovo. Não é mera curiosidade.
Se existirem milhares ou milhões de sistemas solares parecidos com o nosso, torna-se bastante improvável que a vida não tenha surgido e se desenvolvido em pelo menos algumas centenas (ou milhares) de outros planetas.
E se a vida surgiu e se desenvolveu, por que razão até hoje não tivemos conhecimento disso? Será que todas as jovens civilizações se autodestruíram antes do amadurecimento?
Será que nenhuma foi além da infância tecnológica, quando aprenderam a capturar, mas não a controlar politicamente, as terríveis forças físico-químicas do átomo?
DESCARTANDO OVNIS E ETS Creio que foi na década de 1960, também, que a mania dos seres extraterrestres extrapolou todos os limites imagináveis. Lembro-me de ter visto o diabo no fundo do quintal, mas bem podia ser um ET.
Só que preferi acreditar no diabo. Ao contrário de milhares de outros que viram seres estranhos, e não só viram como tiveram contacto, viajaram juntos e receberam mensagens. Ou acreditaram nisso. Drake não é pessimista.
Com seu rosto bonachão, parece antes um daqueles optimistas inarredáveis, para quem nada é impossível, e que logo ali na esquina vão deparar-se com um milagre. Claro que já foi mais optimista. Em 1960 usou pela primeira vez um radiotelescópio na busca de sinais eletromagnéticos que indicassem vida inteligente.
No ano seguinte formulou a sua equação. Mais tarde criou o Projecto SETI (busca por inteligências extraterrestres, em inglês), ao qual se tem dedicado.
No princípio, recebeu ajuda do governo dos Estados Unidos, mas desde 1993 vive às próprias custas, com a ajuda de outros abnegados optimistas, batalhadores incansáveis pela sobrevivência da vida na Terra, a despeito de todos os governos, poderes, armas, guerras e desastradas experiências que costumamos apelidar de progresso. No entanto, mesmo com todo o optimismo, nenhum desses pesquisadores leva a sério o aparecimento dos OVNIs e ETs rotineiros.
Para eles, ainda não houve qualquer prova da existência de vida inteligente em qualquer parte do Universo, excepto aqui, neste grão de poeira perdido num sistema solar medíocre, escondido num cantinho obscuro da Via- Láctea. Mas como eles mesmos reconhecem, estamos apenas engatinhando e talvez seja muito cedo.
OS CONCEITOS BÁSICOS DA EQUAÇÃO A fórmula original, que já examinei de passagem há um tempo atrás, numa outra crónica não muito optimista, é a seguinte: N* x Fp x Fe x Fl x Fi x Fc x L = N N*, número de estrelas na Via-Láctea; Fp, percentagem de estrelas com sistemas planetários; Fe, percentagem de planetas em condições ecológicas semelhantes à Terra; Fl, percentagem desses planetas onde a vida possa ter surgido; Fi, percentagem de planetas com vida onde possa ter surgido a inteligência; Fc, percentagem de planetas onde a vida inteligente desenvolveu tecnologia; L, duração da vida no planeta a partir do desenvolvimento tecnológico; N, número total de civilizações capazes de se comunicarem com a Terra.
PENSAR, PENSAR E PENSAR Como se vê, não é preciso ser astrónomo, físico ou matemático para entender o problema. Mas é preciso um pouco de conhecimento para chegar a conclusões. Por exemplo, se qualquer dos factores tender a zero, o resultado final será igualmente zero. Em princípio, não há nada de errado com os quatro primeiro factores.
Da inteligência em diante é que a história se complica. Testes elementares de laboratório sugerem que o aparecimento da vida é praticamente instantâneo dadas as condições mínimas necessárias. Também é tacitamente aceite que a vida tende a evoluir para níveis superiores de complexidade.
Não fica claro, contudo, se a chamada inteligência superior faz parte da escalada inexorável em direcção ao, digamos assim, sucesso biológico. Pode ser que para a natureza, no seu processo de criação e selecção, sobrevivência e inteligência não sejam sinónimos. O que seria trágico para nós, e para a inteligência.
Sebastião Nunes (cronista, Brasil) |